Eldon – o terrível!

Dedico este conto a Miguel, Rodrigo e “Impherno”, pelas muitas horas de diversão saudável e engraçada, em torno de uma mesa, nas sessões de RPG.

Dentro de você há um universo infinito, aberto…
pronto para ser seduzido pelos deuses da aventura.

Eldon – o terrível, era assim que se intitulava. Sim, aquela criaturinha era realmente terrível. Terrivelmente chata, impertinente, arrogante, dominadora e mentirosa. Pelos deuses! Como aquela odiosa criatura era falsa. Ainda me pergunto como algo tão pequeno podia ser tão endiabrado e petulante a ponto de nem mesmo o guerreiro do grupo, apesar daquele coitado não possuir muita astúcia ou força, ser capaz de tomar o controle da situação. Pode ser difícil de acreditar, mas aquele pequenino ser, com apenas noventa centímetros de altura, derrubava mais oponentes que o próprio Torak, nosso guerreiro. E o que era pior, com a maior eficiência e facilidade possível.

Sua agilidade em combate e sua destreza eram realmente inigualáveis e seus talentos tão variados quanto mortíferos, ainda mais quando atacava à distância, com sua besta. Em distâncias curtas, quando usava suas táticas furtivas, seus disparos eram letais aos oponentes, mas esta era, de longe, apenas uma de suas exímias habilidades, mas de modo algum a melhor.
A perícia com bestas era superada apenas por sua pontaria com pedras e outras armas de arremesso. Minha cabeça ainda dói ao lembrar das inúmeras vezes em que estávamos prestes a nos separar por corredores sinuosos e, no furor de nossas afetuosas trocas de injúrias, eu era atingido por uma pedrada. Por mais rápido que eu fosse tentando enxergar de que lugar a pedra teria vindo, deparava-me sempre com as sombras e com o silêncio. Maldito ladino halfling!
O que mais eu podia fazer? Minha condição de clérigo ordeiro e defensor não permitiria vinganças premeditadas e cruéis, mesmo porque o próprio Eldon não era mau, apenas desordeiro, amante de uma liberdade e não seguidor de regra alguma, a não ser a sua própria regra.
Sua tendência desregrada, alheia a qualquer lei imposta pelo reinado, talvez possa ser facilmente explicada por sua raça e pela vocação natural desta para a profissão ladina, adicionando a isso uma sabedoria e inteligência muito acima da média, detalhes que explicariam a arrogância e astúcia desmedidas inerentes ao pequenino.
Outro fator importante nessa história foi a ocasião em que nos conhecemos, episódio que explica muito bem o motivo que me impede de culpar seus atos e, de certa forma, ainda manter relações de amizade com Eldon. Ele salvou minha vida, e este mérito ninguém pode tirar dele, conforme vocês mesmos verão mais adiante, no decorrer de minha narrativa.
Naquela época eu era muito jovem, ingênuo e estava ávido por aventuras e fama; percorria os reinos propagando a fé aos devotos, a esperança aos necessitados e a ira divina aos infiéis. Tudo isso, é claro, na minha concepção. Nas vésperas do solstício de verão, encontrava-me viajando pelas terras afastadas do oeste, mais precisamente na região de Orkhust, uma pequena comunidade agrícola bem afastada das grandes cidades.
Quando cheguei ao vilarejo eu sabia, lá no íntimo, que as coisas não estavam normais, entretanto o que eu nem sequer imaginava, como de fato ocorreu, era que as coisas ficariam piores. Conversando com alguns cidadãos, descobri que vários eventos eclodiam na região, entre eles aquele que me levou até a chamada “Cidadela sem Sol” – o desaparecimento dos irmãos Hucrele e de seus companheiros.
No ímpeto de propagar o bem e encontrar o grupo de aventureiros vivo, recebendo assim uma farta recompensa, parti em direção da Cidadela sem Sol sem ao menos aguardar por reforços. Paguei por esse erro, e paguei caro. Fui aprisionado poucas horas depois de entrar na masmorra. Capturado por kobolds, logo eu, um clérigo elfo treinado. Podem acreditar nisso?
Permaneci acorrentado durante um tempo que não consigo recordar. Lembro-me apenas que quando vi a luz entrar pela porta novamente, lá estava aquela criaturinha, tão pequena e de rosto tão jovial quanto uma criança, apontando sua besta para minha cabeça e olhando desconfiadamente para mim.
A sala estava escura, eu estava amordaçado, e ele, logicamente, jamais saberia dizer o que é que estava se mexendo freneticamente próximo à parede oposta à porta. Por sorte, agradeci, naquele momento, por ele ser inteligente e dono de uma perspicácia única para não disparar um virote em minha cabeça. Foi Eldon quem me soltou das algemas. Fez isso com uma facilidade assustadora, parecia estar brincando. Mais tarde vim a saber que ele também estivera preso. Foi, assim como eu, emboscado por vários kobolds, entretanto ele tinha uma boa justificativa para ter sido pego. Era pequeno, mais frágil, pouco habituado ao combate e contava com outros recursos mais eficazes para livrar-se de tal situação, quando ninguém mais estivesse por perto. Com ele estava o guerreiro anão.
Fiquei sabendo por Torak, o guerreiro, que Eldon escapou sozinho, mesmo sem o auxílio de suas ferramentas, e foi também através de Torak que descobri o quanto Eldon era dominador por natureza. Um pouco envergonhado, o guerreiro confessou ter cometido um erro gravíssimo ao entrar na sala em que Eldon estava; fez muito barulho, não procurou ser cauteloso de forma alguma e quando entrou no quarto escuro, já estava emboscado e a mercê de Eldon. O fato de não enxergar seu oponente fez com que Torak confundisse sua própria raça. Um guerreiro anão dizendo para seu oponente, até então invisível, não se preocupar porque ele era humano e não oferecia perigo?!?! Dá para acreditar? Pobre Torak…
Depois desse encontro nos unimos e partimos em busca do mesmo destino. Bem… mais ou menos… eu procurava o grupo de aventureiros e uma farta recompensa, outro, apenas os irmãos Hucrele ou seus sinetes e Eldon, bem, Eldon era um caso a parte. Só estava em busca de aventura, sua meta era explorar mais e mais masmorras, tornando-se perito nessa profissão e fazendo sua fortuna com os tesouros encontrados dessa forma. Quanta coragem tinha o baixinho.
Depois de formalizada nossa união como um grupo, prosseguimos na exploração da cidadela, mas os fatos não nos agraciaram como gostaríamos. Entramos em muitos combates contra ratos atrozes e kobolds, e confesso que a tensão constante abalou meus nervos a ponto de me confundir, reduzindo meu auxílio ao grupo. Foi num desses momentos tensos de combate que Syrions apareceu com seu lobo. Na ocasião eu estava impossibilitado de atacar e tanto o guerreiro quanto o ladino já não davam muita atenção para mim, pois eu definitivamente não estava auxiliando o grupo em combate.
Eldon, mais uma vez, estava em frente à porta, disparando seus virotes, enquanto Torak, um pouco mais adiante, combatia nossos inimigos em corpo a corpo. Eu apenas olhei para o lado a tempo de ver nosso ilustre visitante girando a funda sobre sua cabeça. Por um momento cheguei a imaginar que ele atacaria Torak, mas ele estava ao lado de Eldon, portanto descartei logo a possibilidade dele ser um inimigo, mas aí veio a preocupação dele errar o ataque. Contrariando meus temores, vi um de nossos oponentes cair com o arremesso da bala de funda. Sim, o nosso novo aliado tinha uma boa pontaria e as coisas pareciam melhorar.
Após o combate e as devidas apresentações, Eldon passou a cultivar admiração e respeito por Syrions, mas hoje sei que aquilo não passava de um certo receio pela força e sabedoria de nosso novo amigo. O ladino era esperto, sabia que não poderia competir com o druida, muito menos engana-lo com tanta eficiência quanto fazia comigo ou mesmo com Torak, portanto, nada mais adequado que se aliar a ele e cultivar esse companheirismo. E foi exatamente isso que fez, continuou aprontando das suas ao lado do guerreiro e escondendo suas descobertas valiosas do restante do grupo. Ainda assim, conseguia exercer sua influência, estendendo-a até Syrions, através de sua lábia.
Uma das partes mais interessantes desta história vem agora, quando nos encontramos pessoalmente com a rainha dos kobolds, acusados de roubarmos seu filhote de dragão. Na ocasião cheguei a pensar que morreríamos, mas a coragem e astúcia de Eldon, aliadas às estratégias e determinação de Syrions criaram um plano audacioso, quase suicida, mas que no final provou ser uma tática extremamente eficaz para nossa situação. Eldon tinha a intenção de barganhar uma passagem livre com os kobolds, formalizar um pacto, melhor dizendo. Sua real intenção era se livrar dos incômodos duelos com kobolds, prosseguir sem problemas pela cidadela e alcançar seu objetivo, que naquele momento era encontrar o filhote de dragão, fugir, e vende-lo a um bom valor no mercado.
Queria se preocupar com os kobolds depois, mas apesar da ideia ser boa, a diplomacia de Syrions não funcionou com a rainha e fomos obrigados a enfrentar mais de 25 kobolds. Estávamos cercados e em desvantagem, mas o druida e o ladino estavam confiantes.
A estratégia seria derrubar a rainha e, dessa forma, subjugar os kobolds restantes. Não me lembro de muita coisa, apenas que Torak e eu demos cobertura a Syrions e Eldon, que se encarregaram de enfrentar a guarda de elite e a própria rainha. Quando recuperei a consciência, apenas Eldons e Syrions, gravemente feridos, estavam em pé. Eles venceram! A rainha estava morta, partida ao meio. Fiquei sabendo que Eldon golpeou-a com toda sua força. Mais uma vez o pequeno me surpreendia com suas peripécias.
Assim que nos recuperamos e nos preparamos para prosseguir, Eldon deu a Syrions um saco de couro, dizendo ser um presente pela sua amizade e por ter acreditado no plano. Miserável! Ele estava bajulando o druida. Ali estavam os dois, juntos, conversando animadamente. Um, feliz com sua farta sacola de ouro, outro, feliz por ter tapeado mais um idiota.
Mas vocês devem estar curiosos para saber o final da história, não estão? Pois bem, ela está longe de acabar, mas continuemos narrando as peripécias, não somente de Eldon, nosso anti-herói, mas de todo o grupo, até o encontro derradeiro com Belak, o proscrito.
Esta história foi redigida dois dias após jogarmos uma aventura de Dungeons and Dragons, e deveríamos marcar uma segunda noite para concluirmos a história. infelizmente nunca mais nos reunimos e cada integrante da mesa tomou um rumo diferente. Hoje é inpossível reunir os mesmos participantes e finalizar a história com o resultado do jogo propriamente dito. Caso eu dê uma continuação, ela será criada do nada e não terá mas vínculo algum com o conteúdo original.
O conteúdo foi adaptado de uma aventura pronta chamada “A Cidadela sem Sol”, baseado em tudo o que aconteceu no “mundo de jogo” e na mesa de jogo.
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3 comentários sobre “Eldon – o terrível!

  1. Eu me afeiçoei a este conto desde que li pela primeira vez no ano passado. Não apenas por me identificar, de alguma maneira misteriosa, com o personagem principal, mas porque sou um amante do RPG e me recordo com saudade das poucas, mas inesquecíveis, vezes em que joguei com amigos e com o Cido. Adoro esse conto!

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    1. Eldon foi um de meus poucos personagens marcantes. Sempre fui o Mestre então eram poucas as oportunidades de jogar com um personagem marcante.
      Foi uma pena não continuarmos a aventura para que eu pudesse escrever todas as peripécias dos jogadores e de Eldon.
      Espero um dia completar a segunda parte.

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