Centaurus em Alerta

O nascimento de uma aventura (e de um romance)

Eu ainda era um mestre novato nos jogos de RPG, algo entre um e dois anos de jogo, quando pensava em uma nova aventura. Por ser inexperiente, ser pioneiro como jogador de RPG em minha cidade e não ter contato com outros grupos, encontrava muita dificuldade no momento. Minhas referências eram o conteúdo da internet, que ainda engatinhava no Brasil, e a única revista especializada em RPG, cujas primeiras edições forneceram informações úteis e muito bem feitas. Sempre que folheava estas primeiras edições, dizia a mim mesmo desejar escrever conteúdos tão bons quanto os que estava lendo, principalmente as aventuras. Lembro que desta vez, em particular, reparei que fazia isso sempre e que, ao fazê-lo, acabava menosprezando minha capacidade. Foi nesse dia que mudei minha concepção de ser mestre e ser capaz. Disse em voz alta a mim mesmo que eu não poderia ser igual a eles, que poderia ser melhor, e que seria.
E assim, aos 15 ou 16 anos, dei início à minha primeira grande aventura – uma aventura que incluía não apenas o puro e simples combate, mas uma aventura mergulhada em uma história tão profunda e rica em detalhes que dela saiu todo o cenário de campanha futurista, vivo até hoje, em minha mesa. Foi, e ainda é, base de todas as minhas aventuras de viagem espacial e cyberpunk. Nascia a trilogia “Centaurus em Alerta”. 

Passei os três meses seguintes à minha epifania coletando dados dos elementos que gostaria de explorar em uma aventura e, embora possa parecer um tempo longo de pesquisa, eu ainda fazia o Colegial (hoje Ensino Médio) em período noturno e trabalhava o dia inteiro, restando minha hora de almoço e momentos em que não estudava alguma matéria.Entendam que esta coleta não significou o uso real dos elementos, mas foi importante para dar volume e uma base inicial de onde partir.

Entre as principais fontes, usei filmes de categoria B, séries e livros. Entre as principais fontes, cito “Arcade – Realidade Mortal”, “Arquivo X – O fantasma da Máquina” (temporada 1, episódio 7) e “Screamers”. Estes sim formaram o núcleo que desejava em minha história.“Arcade – Realidade Mortal” deu vida à I.A. (Inteligência Artificial) escondida no mainframe central da Estação Centaurus com nome homônimo, enquanto que “O fantasma da Máquina” de Arquivo X regulou o tom que desejava para a personalidade desta I.A.  Screamers entram em cena como principal desafio e enigma logo no início da aventura, representando um segundo projeto secreto e gancho para uma futura aventura, ramificada a partir dos eventos ocorridos aqui.

É importante ressaltar que em um cenário Cyberpunk o mundo pulsa com vida, violência e alta tecnologia, por isso achei necessário dar importância ao projeto Screemers tanto quanto a Arcade. Mais tarde essa estratégia se revelou correta por incrementar maior profundidade à trama.

No enredo original, a história começa com uma tragédia: o cruzador Alpha 1N, que retornava de uma missão na estação Centaurus explode próximo à atmosfera terrestre, matando a tripulação. Fragmentos grandes também resistem à reentrada na atmosfera e atingem uma área populosa da Cidade Internacional, sede da Federação.  Mensagens corrompidas do cruzador informam problemas com o reator, um ataque cibernético e um invasor não identificado. Para complicar, a comunicação com a Estação Centaurus é perdida e uma missão de emergência é iniciada para investigar o que aconteceu com o cruzador e com a comunicação da Estação. Paralelamente, os PCs, contratados pelo S.I.A.D. (órgão militar da Federação) são incumbidos de procurar indícios de envolvimento da Corporação Lunars, até então principal suspeita de conspirar contra a Federação e talvez atacar o Alpha 1N.Esta introdução serviu como ponto de partida para toda a estrutura da aventura, que acabou por se tornar tão grande que foi necessário dividi-la em três partes:

Centaurus em Alerta: resgate suicida – narra toda a apresentação do cenário e as descobertas dos segredos sujos da Lunars. Inclui, também, uma relação social bem complicada e conflitante dos PCs com um grupo de elite do S.I.A.D., importante para o desenrolar da trama quando um acidente/ataque mata integrantes do grupo de elite e fere gravemente outros.

Centaurus em Alerta: Ameaça Fantasma – A primeira aventura encerra-se garantindo a sobrevivência dos PCs, mas a um alto custo. A Estação está abandonada, parcialmente destruída e inoperante. A corporação Lunars responsabiliza diretamente o grupo dos PCs, que está neste momento detido em um quartel do S.I.A.D. para sua segurança. Uma mensagem da Estação Centaurus obriga a equipe a realizar uma nova missão – há um sobrevivente esperando por eles, e ele quer vingança.

Centaurus em Alerta:  Inimigo Imortal – Arcade escapou de novo. E desta vez conseguiu fazer algo pior. Toda a brincadeira de gato e rato anterior não passou de um engodo para que pudesse quebrar os códigos dos satélites e realizar a transferência de seu algoritmo (ou consciência) para o mainframe do Centrum, principal centro de tecnologia e desenvolvimento da Terra. Com toda a rede de computadores ao seu dispor, e rodando em um mainframe poderosíssimo, Arcade conseguirá em poucos dias ter acesso e domínio a todos os sistemas da Terra. A equipe dos PCs está retornando rápido, mas Arcade teve acesso ao sistema militar e já preparou a recepção…


Em resumo, eis a trilogia. Nascida de um desejo de fazer uma grande aventura, e um pouco de ambição, consegui criar algo memorável que meus jogadores lembram com euforia e saudosismo até hoje. Os novos jogadores já viveram algumas aventuras no mesmo cenário, inclusive participaram da trilogia reescrita para formato de eventos. Ela foi importante por dois motivos: permitiu que eu ganhasse confiança para escrever projetos futuros e mostrou que eu estava fazendo um bom trabalho como mestre.

O sucesso deste projeto me animou para começar a escrever outras histórias e, de certa forma, posso dizer que representou o início de meu gosto pela Literatura e por escrever não apenas aventuras de RPG, mas todos os contos que vieram depois. É claro que desejo escrever esta aventura na forma de um romance sci-fi, assim como muitas outras. Quem sabe em um futuro próximo?

Até a próxima!

Anúncios

Anatomia de uma personagem

O jogador por trás da criação

Um de meus jogadores é novato, tem dificuldades para se expressar e nunca foi de ler muito, como ele mesmo confessou um dia, possuindo uma certa dificuldade para ler e compreender regras, apesar de gostar muito de jogar RPG. Como agravante, possui emprego em uma fazenda longe da cidade e seus horários o impede de estar presente em muitas das partidas que marcamos. Em todo caso, é um jogador participativo e interessado quando consegue tempo para se dedicar.

Quando iniciei a Campanha de Dust, quase todos os jogadores já tinham em mente os rascunhos de suas personagens e como iriam funcionar no cenário. Foi fácil montar as planilhas para eles, mas a personagem deste jogador em particular era uma ficha em branco, possuindo apenas seu nome de jogador e personagem. Permaneceu assim por pelo menos 6 meses, até que em nosso último jogo, agora no começo de 2019, ele conseguiu aparecer para jogar de verdade. Só havia um problema, sua ficha não existia!

Para não perdermos a noite, iniciei a partida normalmente e jogamos como se sua personagem estivesse completa – quando era necessário um teste, pedia que jogasse com um NH pré-estabelecido por mim. Terminamos a aventura e disse que precisávamos criar a ficha de sua personagem sem falta. No dia seguinte comecei a trabalhar os elementos para esta tarefa.

Sabia que ele gostaria de manter a personagem original, mesmo estando muito tosca em termos de originalidade, personalidade e tática. Pensei então em potencializar aquilo que já sabíamos dele por meio das 3 ou 4 partidas jogadas previamente. Parti do princípio que como fazendeiro, tal como era originalmente, deveria possuir algumas perícias relativas a esta profissão, além de Empatia com Animais.

O cenário de Dust é um ambiente bem hostil – um deserto interminável com tempestades de areia, insetos gigantes e criaturas fantásticas, portanto esta personagem precisaria ser muito boa no que faz. Optei por uma gama de perícias vinculadas a Talentos específicos [Explorador e Companheiro Animal] para representar essas duas facetas: o ambiente inóspito de Dust e a característica de ser uma personagem voltada para o cultivo e lida com animais.

Obviamente, faltaram algumas perícias básicas para nosso fazendeiro, como Administração e algumas outras indispensáveis para quem realmente sabe lidar com a terra – havia, neta etapa,  a questão do total de Pontos de Personagem e o conflito entre o resultado que meu jogador queria e o que eu, como GM, tentei fazer para criar uma personagem jogável e ao mesmo tempo interessante para meu jogador. Essa deficiência, dentro do jogo, é explicada por suas Desvantagens: Dever (sua fazenda), Dependentes (seus funcionários), Senso do Dever (o povo de Dust) e Inimigo (um fazendeiro vizinho rival que deseja suas terras por serem mais férteis).

A escolha das Desvantagens pareceram óbvias por dois motivos:

1º – Elas justificam a ausência do jogador na mesa nos dias em que trabalha e não pode comparecer;

2º – Elas completam as lacunas deixadas na personagem em termos de perícias e outras capacidades ausentes.

É interessante observar que o próprio jogador, sendo novato e com pouca experiência, optou por usar um background dento de sua zona de conforto e, principalmente, realidade. Foi natural que eu trabalhasse Desvantagens que incorporassem essa perspectiva.

Com os Atributos, Vantagens e Desvantagens concluídas, chegamos a um ponto importante: suas armas. O laço e o chicote foram escolhas lógicas pela própria natureza da personagem. Pensei que seria legal ela possuir um estilo cowboy, mas com chicote no lugar da pistola – outros dois jogadores já cumpriam este papel.

O mais curioso é que conforme fui montando na minha mente a personagem, fui conversando simultaneamente com meu jogador por chat, e assim que enviava minhas ideias, chegava um texto parecido com o que eu enviara. Ele até comentou que eu estava lendo seus pensamentos e isso foi interessante porque media a satisfação dele com sua nova personagem.

O toque final foi um efeito nos ataques com chicote. Quando usado em combate ele se incendeia e queima o oponente. Para limitar o efeito (e economizar pontos), incluí algumas ampliações e limitações (Acompanhamento, Agente de Contato, Pode ser Roubado) – o dano é maior, mas apenas se o golpe inicial vencer a RD do Alvo. Da mesma forma o poder está no chicote, perdendo o efeito se perder ou ficar sem a arma.

Para finalizar, o jogador queria ter um falcão como animal de estimação e de caça, ser ótimo rastreador e ter senso do perigo. Deixei um facão como arma secundária e um rifle para ataques de longa distância.

Obviamente algumas pontas ficaram soltas ou incompletas. Foi necessária alguma aceitação “poética” para concluir a personagem, posto que ela deve agradar ao jogador, não a mim. Portanto, estando funcional, não me oponho ao resultado final.

Obviamente, não busco a perfeição, e com toda certeza o jogador não se interessa por ela, tendo considerado o resultado final de sua personagem perfeito.

Saga: Ascensão e Queda de Hordak – parte final: o destino de Hordak

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Parte final: o destino de Hordak

Continuar lendo Saga: Ascensão e Queda de Hordak – parte final: o destino de Hordak

Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 3: o poderoso Hordak

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Terceira parte: o poderoso Hordak

Continuar lendo Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 3: o poderoso Hordak

Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 2: A Zona do Medo

Eu não imaginava que a galera fosse gostar tanto! Então, atendendo a milhares de pedidos, ao invés de ser um capítulo por semana, será um por dia. Portanto, até domingo vocês terão a conclusão desta maravilhosa Saga de Hordak. Enjoy it!

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Segunda parte: a Zona do Medo

Continuar lendo Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 2: A Zona do Medo

Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 1: a vergonha do Mestre

Olá amigas e amigos do blog Caminhos do Submundo! Antes de mais nada, desejo um trevoso ano de 2019, com muitas bênçãos do senhor das trevas. Dando sequência às sagas das origens dos vilões dos maravilhosos desenhos que tive a honra e o prazer de crescer assistindo nos anos 1980 e 1990 (leia os contos: Saga A Origem do Esqueleto, em 4 capítulos e Saga A Históra de Mumm Ra, também em 4 capítulos) agora é a vez de um dos mais emblemáticos e poderosos, embora não seja o meu preferido: Hordak! Esta saga também será em 4 capítulos que serão postados um por semana. Espero que curtam e sigam a nossa página no Facebook (clica que já vai direto pra lá). Abraços trevosos pra todas e todos! Boa leitura!

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Primeira Parte: a vergonha do mestre Continuar lendo Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 1: a vergonha do Mestre

Lua Maligna – parte final

Fim de Outono – Floresta Vesve

            Estou há cerca de dois meses sem contato com o grupo de Ray. Minhas noites têm sido atormentadas por pesadelos. Neles, estou sempre no meio de batalhas sangrentas. Sei que sou um importante Capitão, mas minhas missões colocam em dúvida meu caráter. Em determinado momento, recebo um lenço branco de alguém que não reconheço, mas sei que é uma pessoa importante e luta ao meu lado na guerra. Ele diz que aquele lenço deve chegar o quanto antes nas mãos do Conselho e que ele representa uma grande traição do General. Quando me viro para partir, ele diz: “Diga que este lenço foi encontrado em um dos aposentos do Templo da Maldade Elemental.”

            Hoje pela manhã presenciei uma movimentação suspeita pela floresta. Um grupo de batedores Orcs retornava da Margem Leste do rio Dulce. Diziam que Iuz ficaria satisfeito com a descoberta.

            Fim de Outono – Divisa com as Terras de Iuz, o Maligno

            Descobri que Iuz é um poderoso e maligno mago que está à procura de uma joia chamada “Olho do Dragão”. Ao que parece, acidentalmente, mineiros da velha torre de guarda localizaram nas antigas cavernas a tal joia e Iuz descobriu. Está formando um exército para roubar a joia e pretende fazer isso no inverno. Até o momento não houve ataques, mas batedores da Torre, e do próprio Iuz estão constantemente indo e vindo. Vejo o mal crescendo, mas sinto algo mais e isso me apavora. Alguma coisa está prestes a acontecer.

            Início do Inverno – Sudoeste da torre de guarda

            A torre recebeu o nome de Torre do Olho do Dragão graças ao achado. Embora eu esteja afastado do contato com qualquer raça, passo meus dias investigando e fazendo o papel de guardião pela floresta. Vez ou outra, elimino pequenos grupos de batedores, tentando atrasar os planos de Iuz, mas hoje ocorreu um encontro temível e acabei descobrindo que o grupo de Ray dentro da Torre.

            Enquanto vigiava a estrada sul, observei furtivamente o avanço de um homem escoltado por seis Orcs. Pensei que fosse Iuz, mas um dos Orcs pronunciou o nome Salazar. Eu podia sentir o mal naquele homem e sua presença me atemorizava. Quando pararam para conversar, descobri que estavam atrás do grupo de Ray, mas como tomaram conhecimento da joia, resolveram levá-la também. Decidiram atacar ao anoitecer, e naquela mesma noite Iuz se aproximava com seu exército.

            Já não seria possível avisar os soldados da Torre. Tanto a estrada quanto as bordas do lago Wyestil, que recebia água do rio Dulce, estavam sob cerco. Eu teria que aguardar para agir. Em algumas horas o combate irrompeu pelas muralhas e pouco tempo depois os atacantes já tomavam o pátio central. Foi neste momento que Salazar entrou. Com uma palavra de comando vi um círculo negro com fumaça verde e doentia se formar em uma grande área, matando instantaneamente Orcs e homens. Em um segundo momento, os mesmos mortos levantavam-se, sob o comando maligno de Salazar. Um Necromante! Um a um ou em grandes grupos, todos os inimigos de Salazar caiam e o meu antigo grupo fugiu através das cavernas. Tal fuga não foi covarde. Ao contrário, eles pretendiam lutar, mas a vitórias contra Salazar era praticamente impossível. Um recuo estratégico seria o melhor. E foi assim que eles desapareceram no interior das cavernas e eu me preocupei com Adele. Onde ela estaria?

Não restando mais nada a fazer, sabendo que não seria páreo para Salazar, fugi margeando a uma distância segura a torre e parti em direção ao leste, na tentativa de encontrar Ray.

Início do Inverno – Penhascos Escarpados

            Ao entardecer, cheguei aos penhascos escarpados que margeiam o Vale das Harpias. Lá em baixo, avistei um pequeno grupo indo em direção ao rio. Pode ser Ray. Iniciarei agora mesmo minha descida até o vale. Estou ansioso por notícias dos acontecimentos e de minha meia-irmã.

            Início do Inverno – Vale das Harpias

            Hoje descobri o que meu pai tentou a vida inteira me dizer. Localizei Ray, que, com grande pesar, informou sobre o cerco ao castelo Calahan. O próprio Rei Negro a matou por puro sadismo, em desafio ao nosso grupo que procurava ajudar Hillvilage.

Da mesma forma, soube que Shaabal, ainda enfurecido, voou para o Sul, libertando seus dois irmãos também aprisionados – Ember e Endormira. Tudo minha culpa e meu pai tentou avisar. Durante a noite os pesadelos voltaram. Desta vez descobri que eu era o Capitão Raizen, de Ancelot. Sou um ancestral direto de um dos grandes heróis do passado. Indiretamente, fui o Arauto da traição que interrompeu o casamento e felicidade de Átilah, e também o próprio carrasco que o baniu para o Calabouço do Desespero. Nos sonhos, eu fazia isso por coerção, já que meu superior, um dos grandes amigos de Átilah e mandante do crime, aprisionou minha esposa e meia-irmã, ameaçando matá-la caso eu não cumprisse suas ordens.

Agora tudo se encaixava. Valkiria e papai sabiam de toda a história de nossa linhagem e tentaram esconder Adele de mim, para que eu não me apaixonasse por ela e, no final, eu fosse usado, assim como meu antepassado, nos planos do inimigo. “Às vezes é melhor perder do que achar”. Nunca tais frases foram tão verdadeiras. E no fim, tudo começou quando resolvi procurá-la e, no processo, comecei a libertar o mal aprisionado no passado de todo o Reino: Nathalia, Shaabal e seus irmãos, minhas falhas pessoais e egoístas. A história ainda está sendo escrita, mas estamos repetindo os mesmos erros do passado.

Início do Inverno – Vale das Harpias

 O grupo sofreu uma séria ruptura. Com os ataques constantes, a pressão exercida sobre nosso moral e com a caçada à joia que Salazar e Iuz promoviam, Ray propôs levar o Olho do Dragão para Waterdeep, ao invés de deixá-la em segurança em Crockport, como havia sido ordenado na Torre do Olho do Dragão. Eu fiquei indeciso, Blake e Turak, nossos dois bárbaros meio-orcs se opuseram. Shura e o necromante mantiveram lealdade ao clérigo e uma discussão se formou. A propósito, não comentei antes dos dois bárbaros por não haver nada neles que fosse digno de comentário. Não que fossem inúteis, pelo contrário, mas o desejo dos dois pela batalha era a única força que os impelia, e não havia história ou tramas que os dois participassem que fossem tão interessantes ou importantes para meus relatos, a não ser seu apoio supremo que garantia nossas vitórias até o momento.

Fomos interrompidos por uma sucessão de ataques e o grupo acabou sendo separado durante o combate. Preferi ficar com Ray, para analisar melhor o que ele planejava, mas algo me dizia que ele já não estava mais com o juízo perfeito. Ele também estava corrompendo sua linhagem, que descendia diretamente de Tergoz. Pelos deuses, estamos garantindo a derrota do Reino. Se continuarmos assim, a maldição permanecerá.

À noite ele disse suas reais intenções: Usaria a joia para subjugar os 3 dragões e os usaria para destruir cada Orc, até que cumprisse a promessa de sua vingança. Nada mais me restava, a não ser segui-lo e cuidar para que tudo se encaminhasse novamente para o seu devido lugar. Entretanto, como Paladino já não tenho mais honra. Perdi minha meia-irmã, que jamais saberá quem fui e o que tentei fazer por ela. Maculei a linhagem da família, repetindo os pecados de séculos atrás. Fiz promessas impossíveis de serem cumpridas para Ceon, já que o que aconteceu ao castelo ocorreu há séculos e nunca seria possível encontrar Duncan. Libertei o mal por duas vezes, deixando Nathalia fugir e fugindo de Shaabal.

Continuarei fiel a Ray até o fim. Logo entraremos em combate novamente, seja contra Salazar, Iuz, ou o que quer que seja. Talvez encontremos soldados do Reino, mas não creio que Ray será cordial com eles. Devo morrer lutando.

Lua Maligna – parte 2

Adendo à incursão a Greyhank  – Encontro com o espírito do Calabouço

Pouco antes de encontrarmos o cenotáfio, adentramos em uma sala isolada, composta por celas. O mais estranho foi acharmos duas delas com prisioneiros. Em uma delas, estava Ceon. Ele não se importava com a nossa presença, ao contrário do outro prisioneiro, que a toda hora implorava por ser solto. Observando atentamente aquela criatura atormentada, que a toda hora circulava de um lado a outro pela cela, conversando sozinho, lamentamos sua insanidade. O mais bizarro era ver o mesmo nome rabiscado nas paredes da cela: Duncan.

Quando Ceon sentiu nossa presença, sua feição obsessiva ficou mais agressiva, mas não conosco, mas para sua fuga. Agora, mais que nunca, ele se esforçava em sair da cela. Implorava para ser libertado, dizia jamais ter o descanso eterno enquanto não fosse libertado e vingasse a morte de sua família. Conforme conversávamos com ele, mais descobríamos sobre o castelo e seu passado.

Em seus dias de glória Greyhank prosperava, enquanto o jovem, arrogante e ambicioso, príncipe Duncan conspirava contra o pai. Ceon era um dos Dez Mais, a guarda de elite do rei, e resistiu até o final ao ataque do príncipe. Mas toda sua fidelidade de nada adiantou. O rei foi morto, as riquezas saqueadas e o pobre Ceon aprisionado apenas para assistir sua esposa ser estuprada e morta pelo Príncipe.

No final, Duncan deixou o guarda da elite lá, aprisionado e indefeso, sentenciado a morrer com a explosão que preparou para afundar o castelo e engolir toda a história e a tragédia do castelo. Mesmo em ruínas, algumas alas permaneceram parcialmente intactas e a maldade se alojou na antiga estrutura. Ceon retornou como um morto – vivo atormentado e vingativo. Apesar disso, não havia maldade em sua alma, apenas mágoa.

Libertamos Ceon, prometendo que se obtivéssemos pistas sobre Duncan, faríamos o possível para informá-lo ou mesmo punir Duncan pelo que fez.

Início da Segunda Quinzena de Outono – Torlynn

Posteriormente soube que Ray já havia passado por lá e realizado uma missão para Gustovan, o burgomenstre. Nesta missão, eles descobriram que um dragão de nome Shaabal estava aprisionado no coração da montanha através de um mineral mágico chamado Eisenkern, e que havia sido minerado durante muitos anos por um clã de anões e, recentemente, por Goblins. A constante retirada do minério enfraqueceu o feitiço que aprisionava a fera e então fomos chamados por Gustovan para descobrir onde estava e recuperar parte do minério retirado das antigas minas.

Conseguimos seguir os Goblins até as ruínas de um pequeno castelo ao leste de Torlynn, mas chegamos tarde demais. Com a ajuda do orc Glashnik, prisioneiro do Minotauro Dabokia, a criatura que havia roubado a pedra dos Goblins, descobrimos que a pedra havia sido forjada em uma espada. Diferente da primeira, esta missão não representou problemas e retornamos a Torlynn com a espada forjada da pedra. O povo de Torlynn agradeceu nossos esforços, embora a Eisenkern estivesse destruída. Gustovan nos deixou com a espada, para que com ela pudéssemos fazer um bom uso. Ele ainda comentava sobre o mal adormecido sob a montanha quando subitamente o solo começou a mover sob nossos pés. O ar foi sacudido por uma enorme explosão. A onda de choque nos derrubou, trêmulos, ao chão. Gritos de terror ecoaram no ar enquanto uma imensa nuvem de fumaça se elevava aos céus. Na confusão escutamos a voz de Gustovan: “O mal! Ele escapou da montanha! Sem a Eisenkern estamos perdidos!”

Quando começamos a nos recuperar dos efeitos da explosão, olhamos para a montanha. Um imenso buraco aparecera na encosta do grande pico de granito e uma nuvem de fumaça negra parecia rolar para os céus como um gigantesco rio de águas pestilentas.

Bem devagar, uma figura horrível emergiu da fumaça. Quando as batidas das asas poderosas e o hálito horrendo se aproximaram mais e mais, quando o silvo que lhe saiu da garganta sufocou os gritos de terror da multidão de habitantes do vilarejo, nós a reconhecemos.

Embora tivéssemos enfrentado em batalhas muitos monstros horrendos, nós sabíamos que nada do que passamos poderia nos ter preparado para estarmos frente a frente com um dragão enfurecido!!!

O céu se fez cinzento como o de uma tempestade com a fumaça que se desprende do rasgo da montanha. O horripilante dragão vermelho estava em pé e, contra o céu, parecia uma poça de sangue sobre um chão escuro. Ao nosso redor, toda a população gritava aterrorizada e tentava fugir quando a grande fera se contraiu e mergulhou sobre a aldeia. Com um rugido ensurdecedor, ele abriu as mandíbulas e soprou uma rajada de fogo sobre o lugar. Tocadas pelo hálito horripilante, muitas casas de Torlynn começam a arder em chamas.

Quando as batidas das asas encouraçadas e poderosas do monstro o levou de volta aos céus, falou numa voz que faz lembrar os estalidos e gemidos de uma grande fogueira:

“Que isto sirva de lição para esta gente minúscula que vive à sombra de Shaabal, o mais temido de todos os dragões. Se quiserem sobreviver, reúnam todo o seu ouro e todos os seus pertences e mandem tudo para a montanha, de presente para mim. Se não receber estes tesouros dentro de dois dias, eu voltarei e nada ficará vivo neste lugar!

De repente, Shaabal mergulhou novamente sobre o vilarejo e todos correram para se proteger. Quando ele se elevou novamente aos ares, todos viram que ele tinha nas garras uma jovem: “Levarei esta coisinha bonita como meu primeiro presente. Façam o que mandei, ou ela será meu jantar de hoje.

Ao dizer isso, Shaabal voou de volta para a cratera na montanha e desapareceu. Os habitantes do vilarejo se recuperaram um pouco do susto e correram para apagar os incêndios. Gustovan lançou para nós um olhar de tristeza, dizendo apenas: “A menina Adele não merecia isso.” Era a minha irmã!!! Deveria salvá-la a qualquer custo.

Escalamos a encosta escarpada com extrema dificuldade. Quando chegamos ao topo, encontramos uma plataforma natural de rocha e uma saliência por onde entramos. Atravessamos galerias recém abertas na montanha, agora quente e cheia de poços de lava e água fervente. Novamente com muita dificuldade, avançamos destemidos ao nosso destino, mas o encontro derradeiro com Shaabal não ocorreu como gostaríamos e, mais uma vez, minha tolice estragou tudo. Fui arrogante e prepotente com uma criatura ancestral e suprema, muito mais forte que todos nós. Acabei enfurecendo ainda mais o dragão, que de tão irado não nos matou. Ao invés disso, disse apenas que não éramos dignos da preocupação dele no momento e que Torlynn seria punida em nosso lugar.

Assim que Shaabal partiu, Ray entrou na câmara que mantinha Adele prisioneira. A encontramos sã e salva, agrilhoada em uma parede. No centro da câmara, rodeado de várias moedas, armas e tantos outros objetos valiosos, repousava uma orbe e, ao seu lado, um homem alto, de olhar penetrante, de armadura escura e um grande martelo de batalha. Estava imóvel, até o momento em que tocamos a orbe. Assim que recobrou os movimentos e a razão, vendo nosso grupo ao seu redor, empunhou firmemente o martelo indagando: “Onde está Shaabal?”. Contamos a nossa história e como foi o desfecho de nosso encontro com a fera. Tergoz lamentou e disse que agora Shaabal destruiria tudo e, se soubesse onde seus irmãos estavam aprisionados, também os libertaria.

De acordo com Tergoz, Shaabal era o mais jovem dos três irmãos e foi o último a ser aprisionado. Deste evento, ele mesmo, Tergoz, terminou aprisionado junto com a fera e morto por ela!?!?!?. Passada a surpresa geral, Tergoz nos explicou que no passado serviu como um grande General, e que lutou ao lado de bravos homens como o grande General Átilah VonRider, o Capitão Raizen de Ancelot (que coincidência) e Lorde Knahyerg ed Nacnud, que conquistou o prestígio dos grandes nomes após ter derrotado o temível demônio que destruiu e amaldiçoou seu castelo. Eram nomes que não conhecíamos, de eras passadas, feitos épicos e grandiosos. Mas de tudo isso, algo estava errado. Nós já sentíamos isso, sabíamos disso por causa da lua, da guerra, do mal. E Tergoz nos preocupou ainda mais.

Segundo o Conselho das Quatro Cidades, Átilah foi condenado como traidor das Terras Encantadas e punido, sendo aprisionado no Calabouço do Desespero às vésperas de seu casamento com Ângela, princesa de Algalord. Ali passaria o resto da vida e, se os deuses fossem justos, a eternidade, para que pudesse espiar suas faltas e pedir perdão por isso. Para Tergoz, o motivo de um novo Rei Negro estar atacando as Terras Encantadas, a maldição lançadas sobre todos e ele mesmo ainda estar preso ao mundo dos vivos era claro: Átilah, o maior paladino que a história já teve era inocente! E agora os deuses cobravam a justiça pela real traição, a traição ao maior e mais justo homem que a história conheceu.

Tergoz nunca abandonou o amigo, nem mesmo quando Átilah foi banido para o Calabouço do Desespero, e acompanhou sua triste sina com grande pesar, até o dia em que precisou partir em busca de Shaabal. Antes disso, os dois sempre conversavam quando Tergoz o visitava, mas nem sempre as notícias eram boas. Átilah se abateu ainda mais quando soube que o amigo partiria, sob orientações do Lorde Knahyerg ed Nacnud, para o sul, pois lá o temível dragão Shaabal assolava os povos dos vales, enquanto que no sudeste Endormira, irmão de Shaabal devastava campos de cereais e devorava o gado dos fazendeiros e Ember, o ancião, era finalmente confinado no interior da Montanha de Ferro, bem ao sul.

Quando saímos do interior da montanha, com Adele em segurança, encontramos o vilarejo destruído e poucos aldeões ainda vivos. Este foi meu segundo pecado! Mas até então eu não fui capaz de admitir minhas falhas, e como ocorreu com Nathalia, não permiti sermões e não procurei a redenção.

Em menos de três dias partimos em direção a Hillvilage, para enfim levar o Brasão das Shieldlands para Calahan, mas insisti em levar Adele comigo, alegando que assim estaria mais segura. Novamente coloquei o grupo em sério perigo, abandonando o fronte de batalha para proteger minha meia-irmã durante os combates. O mais irônico nisso é que ela nunca soube quem eu realmente era. Por minha imprudência em quebrar o círculo defensivo, partindo em uma investida infrutífera, os Gnolls guerreiros atravessaram as defesas e assassinaram Adele. Então, depois de cometer pecados e mais pecados, entendi o que meu pai dizia, e paguei por isso – perdi meus poderes e deixei de ser um guerreiro divino. Me tornei um soldado comum, e responsável direto pela morte de minha irmã.

Devido ao atraso na viagem, resolvemos nos separar para conseguir levar o artefato o quanto antes e em segurança, por isso parti sozinho por outros caminhos, em busca de redenção e deixei Adele aos cuidados de Ray e seu grupo.

Lua Maligna – parte 1

Segunda quinzena do Verão – Ancelot.

Depois de 13 anos, finalmente consegui localizar o paradeiro de minha meia-irmã, Adele. Sempre desejei conhecê-la pessoalmente, mesmo contra a vontade de meu pai. Ele dizia que “havia coisas que estariam melhores perdidas do que achadas”. Ainda hoje, com 27 anos, me pergunto o que queria dizer.

Em todo caso, quando Valkiria engravidou de meu pai, 2 anos após a morte de minha mãe, desistiu da vida que levava em Ancelot, que de modo algum era sofrida, e partiu para o sul, em direção a HillVilage. Isso aconteceu após uma semana de muito tumulto em torno das Quatro Cidades. Rumores de uma guerra se espalhavam. Em uma noite, depois de muito conversarem, Valkiria partiu. Fiquei triste com esta separação, pois ela sempre foi como uma mãe para mim. Papai não derramou uma lágrima sequer, e jamais tocou no assunto novamente.

Portanto, sabendo exatamente onde procurar minha meia-irmã, e esperançoso de encontrar novamente Valkiria, iniciei os preparativos para a Jornada que faria em menos de 15 dias. Neste período papai descobriu meus planos e lamentou minha decisão, embora não tenha procurado de forma alguma contrariar meus motivos.

 

Início de Outono – Planícies de Gix.

O início de minha jornada foi marcado por diversos contratempos. Eu deveria estar presente no castelo de Calahan antes do final do verão, mas subitamente, do Norte Selvagem, tribos Orcs infestaram as regiões fronteiriças e passaram a pilhar e destruir as fazendas de cereais. Impedido de prosseguir antes de descobrir o que impelia o ataque das tribos, permaneci em Ancelot por precaução. Papai não se surpreendeu.

Estranhamente, meu pai disse que isso era um sinal, que tempos ruins viriam e que eu deveria permanecer em Ancelot a qualquer custo. Indagando o motivo, recebi apenas respostas enigmáticas de maniqueísmo e vaticínio e que parte do destino do Reino, e do meu próprio sangue, estava em jogo. Quanta imaginação!

Não levei a sério seus temores, pois, afinal, sou Paladino do deus do heroísmo e todo pai teme pela segurança de seu filho. Parti no fim do Verão. E então, tudo começou a acontecer…

Nas proximidades das ruínas do Castelo GreyHank, encontrei Raymond, Clérigo de Pelor, e Shura, guerreiro habilidoso, ávido por fama e glória. Foi a primeira vez que nós três nos víamos e foi neste momento que soubemos o que realmente estava acontecendo através do Clérigo.

Raymond, ou Ray, como gosta de ser chamado, contou sua triste história e como veio parar nas terras do Sul, onde recebeu a missão mais importante de sua vida até o momento. Vindo de Waterdeep, Ray busca pistas de uma tribo Orc bárbara específica e, mesmo nunca entrando em detalhes, sabemos que é importante para ele, pois esta tribo assassinou sua família. Desde então, Ray peregrina em busca de aprimoramento e vingança. Quando chegou a HillVilage, soube dos movimentos de um inimigo poderoso das Terras Encantadas, que há séculos deveria estar morto. Embora não fosse o enfoque de sua missão, saber que o Exército do inimigo era composto por Orcs foi suficiente, e o Clérigo não mediu esforços em oferecer ajuda e partir como apoio no grupo de Kaira, a maga filha de Lothar, que partia em busca do Brasão das Shieldlands, um artefato importante que seria útil na proteção do Castelo Calahan. Segundo a lenda do Artefato, ele faria as paredes e muros do castelo resistirem melhor ao ataques dos inimigos.

Desta nobre menina, Kaira, pouco sei, a não ser o que Ray contava sobre ela, pois, naquele mesmo dia em que Shura, Ray e eu nos encontramos, soube que a missão do grupo original, o grupo da maga, havia falhado. Apenas Ray sobreviveu à incursão, que deixou uma paladina, uma guerreira, uma druida, dois ladinos e um ranger mortos. Quanto a Kaira, encontramos sua bolsa de magia caída fora das ruínas, portanto presumimos que ainda estivesse viva.

 Então, quando nos aproximamos novamente das ruínas de GreyHank, senti um arrepio muito além do que eu pudesse entender, e sem saber o motivo, lembrei das frases de meu pai. Bobagem!, pensei. E desapareci nas entranhas amaldiçoadas e malignas do castelo.

Nossa incursão permaneceu firme e seguiu destemida, enfrentando todos os tipos de desafios e quase caí em combate contra os terríveis Minotauros Galek. Mas de todos os meus azares este era o menor, pois quando chegamos aos salões secos além das forjas dos Castelo, finalmente entendi o que meu pai dizia com “melhor perder do que achar”. Por imprudência, talvez ingenuidade ou até mesmo estupidez, libertei de seu cárcere o mal aprisionado. E eis que descrevo exatamente o que senti quando entrei na sala do cenotáfio maldito:

Um odor leve de sangue atingiu minhas narinas assim que a porta deste aposento foi aberta. A sala era morbidamente iluminada por um candelabro suspenso no centro do teto. Logo abaixo encontrava-se um cenotáfio de mármore com entalhes arcaicos  que eu não era capaz de entender em uma primeira avaliação. Grossas correntes mantinham o cenotáfio lacrado e vários símbolos sagrados estavam fixados em torno das correntes. Nas paredes banhadas de sangue seco, havia um texto gravado em baixo relevo num idioma antigo:

 

O feitiço da Lua

 Vejo a lua, movendo-se num arco suave. Como uma sinistra tocha de cemitério, ela ainda não revela todo seu rosto brilhante. A lua brilha, apesar dos feitiços que a atormentam, e mantém seu curso, abraçando o horizonte. Lua, agora a sua chama está morbidamente branca, lançando ao vento ondas de luz macabra para aterrorizar a humanidade.

Na grama avermelhada por sangue ofereço-lhe animais em sacrifício. Para você, Lua, acendo a tocha ritual que roubei de uma cerimônia de cremação. Por você, Lua, arqueio minha cabeça contra o peito, e em seguida a jogo para trás, para soltar e pentear meu cabelo; cantando, prendo-o com a tiara sagrada, como é feito nos funerais. Por você, seguro este ramo enregelado com o orvalho da morte. Em seu nome, Lua, desnudo os seios e retalho meus braços com a adaga sagrada, derramando minha sanidade e meu sangue.

Para sempre.

Teimoso, decidi quebrar as correntes para descobrir o que realmente havia dentro. E qual não foi minha surpresa ao encontrar uma linda jovem, viva, em seu interior? Ela abriu seus meigos olhos e carinhosamente perguntou: Você veio me salvar? Que gentileza! Meu nome é Nathalia, fui aprisionada aqui cruelmente para que morresse em sacrifício. E eu, aprisionado em seu feitiço, me apiedei do demônio! Ela então saiu do cenotáfio e encantou o guerreiro com igual facilidade, mas enquanto Shura era aprisionado por um feitiço, eu estava dominado pela paixão. Ray gritou comigo. Enfurecido, ordenou que eu matasse o monstro, mas enfeitiçado como estava, não dei ouvidos e me opus a ele. Então Nathalia o atacou. Após o primeiro golpe, vi Ray empalidecer e cambalear. Mais dois golpes de Nathalia e Ray estava morto. Então recobrei meu juízo. Por Heironeous, eu pequei!

Minha salvação foi o raiar do dia, que afastou a vampira e permitiu que eu ajudasse Ray, que por muito pouco não permaneceu no mundo dos mortos… ou talvez dos morto-vivos. Fugimos! Noite e dia fugimos sem olhar para trás, temendo avistar o demônio nos perseguindo e sermos fracos demais para enfrentá-lo. Só paramos em Torlynn, uma pequena comunidade com cerca de 20 cabanas erguidas no sopé da Montanha do Crepúsculo.

Lua Maligna – introdução

Em 2002, dei início a uma pequena aventura introdutória de RPG, na época AD&D (Advanced Dungeons and Dragons), para um grupo de iniciantes. Desta aventura, nasceu uma Campanha gigantesca que prossegue até hoje. O texto, que publicarei em poucas partes, representa o diário de viagem de um dos heróis e a narrativa de tudo o que aconteceu nas aventuras em que o jogador participou dando vida ao paladino Raizen.