Oficina de criação literária

ATENÇÃO!

Oficina de Escrita Criativa já está com inscrições abertas, abaixo um pequeno resumo de atividade, apenas 3 dias de oficina, com poucas horas, vcs não vão perder!

SINOPSE DA ATIVIDADE
A proposta é um trabalho de imersão em que os participantes escrevam uma ficção curta – individual e original, inspirada num acontecimento real – pessoal ou coletivo. Durante a oficina serão discutidos os elementos básicos da
escrita e principalmente as estratégias de abordagem para a criação literária a partir das intenções do(a) autor(a).

MINICURRÍCULO
Eda Nagayama é escritora, doutoranda em Estudos Literários em Inglês (FFLCH/USP) com o tema “A crise migratória e o traumático na narração literária”, graduada em Artes Cênicas e Mestre em Comunicação e Estética do Audiovisual (ECA/USP). Em 2016-2017 integrou o programa internacional SPeCTReSS – The Social Performance, Cultural Trauma and the Reestablishing of Solid Sovereignties, com pesquisa sobre locais e pós-memória do Holocausto, na Polônia, Alemanha e República Tcheca. Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 com “Desgarrados” (Cosac Naify
2015, Ed. Sesi 2018), também vencedor do Nascente/USP 2011.

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O Guardião – capítulo 11

Herança

Curiosa, Bárbara pousou a mão nos arquivos, parando ao lembrar da recomendação do patrão. Pegou a pasta, guardou na gaveta e saiu da biblioteca. Ligou para Sofia, que atendeu feliz em saber que era sua amiga. Conversaram amenidades e combinaram de jantar fora.

Enquanto realizava os afazeres domésticos, Bárbara esqueceu dos problemas e permaneceu concentrada até perceber a penumbra do final da tarde. Estava em seu quarto guardando algumas roupas quando reparou que a casa ao lado tinha uma luz acesa e achou muito estranho. Os moradores sempre foram muito reclusos, e Bárbara definitivamente não mantinha contato com eles, ou com qualquer outro daquela rua, com exceção de Sofia. No entanto, estes vizinhos em particular haviam se mudado e a casa estava vazia. A luz acesa a intrigava.

Continuou arrumando as roupas e o quarto e conforme a noite avançava, um incômodo crescente tomava conta dela. Uma sensação ruim de estar sendo observada. Quando o pressentimento se tornou insuportável, largou o que estava, e fechou a janela do quarto, apagou a luz e repetiu a ação em cada cômodo da casa e tomando um cuidado maior com as portas da cozinha e sala.

Ainda angustiada, foi até a pia, encheu uma leiteira de água e levou ao fogão para fervê-la enquanto ligava para a polícia, que informou atender ao chamado assim que possível alegando não ser uma urgência. Sem mais alternativas, encostou na porta da cozinha perdendo-se em pensamentos e não percebendo, neste intervalo, a dança de sombras em sua casa, muito menos os sons na casa ao lado ou os latidos de um cão ao longe.

Voltou a si com a água fervendo. Tirou a leiteira do fogo, mas um barulho a deixou alerta. Caminhou sorrateira até o quarto sem acender a luz e evitando o ranger do assoalho com seus passos. Encostou o rosto na janela e observou por uma fresta que a luz da casa ao lado já não estava mais acesa – viu apenas um vulto em cima do muro, que rapidamente deslizou para seu corredor, caindo mais pesadamente do que desejava.

Instintivamente, Bárbara abriu a janela e jogou a leiteira na direção do vulto. Surpreendido, o intruso caiu no chão com a pancada e gritou de dor pela água quente em seu corpo. Fechou novamente a janela, correu para o telefone e ligou para a polícia informando a invasão. Desta vez a chamada foi respondida com mais rapidez. Neste intervalo, o invasor correu para a rua através do corredor, trombando e derrubando alguns vasos.

Levada pelo furor do momento, Bárbara agarrou a barra de ferro que servia de tranca reforçada da janela e correu para a sala acendendo a luz, abrindo a porta e alcançando a rua logo depois. Sem perceber, havia saltado o muro baixo enquanto agitava a barra em uma das mãos e xingava a plenos pulmões o maldito perseguidor que não a deixava em paz. Viu que ele corria trôpego em direção à mata e, não querendo perder tempo em uma perseguição no escuro, agachou passando a mão na primeira pedra que alcançou e arremessou, provavelmente acertando porque ele caiu rolando enquanto gritava:

— EU VOU TE MATAR, VADIA! VOCÊ ME PAGA!

Furiosa com a ofensa, preparou uma corrida que não chegou a iniciar. Sofia já estava na rua em defesa da amiga empunhando um pedaço de madeira, o que contrastava com sua personalidade habitual. Outros vizinhos, alertados pela algazarra, saíram para a rua aglomerando-se ao redor das duas. Do intruso não havia mais sinal.

Uma viatura surgiu na esquina, fazendo a curva em velocidade considerável e parando próxima ao grupo. Dois policiais as atenderam solícitos e vasculharam a casa e as imediações sem encontrar vestígios do invasor.  Mais duas viaturas chegaram nesse meio tempo e outros policiais se juntaram à procura do homem e de outras pistas sem obterem sucesso. Enquanto as duas amigas ainda conversavam com um policial, outro veículo estacionou na rua. Um senhor austero e bem alinhado saiu dele e caminhou vigorosamente até elas. Seu semblante denunciava preocupação.

— Boa noite, meninas! Espero que o susto tenha passado. Meu nome é Ivan. Serei investigador responsável pelo caso e gostaria de fazer algumas perguntas. Peço que forneçam todos os detalhes que conseguirem lembrar, é muito importante. Este caso será reaberto.

— Reaberto? – repetiram as duas em uníssono.

— Sim, trabalhei no caso dos roubos e assassinatos ocorridos nesta rua, mas não conseguimos solucionar. Ao que tudo indica, o invasor pode ser o mesmo responsável pelas ocorrências naquela época. Vocês deverão tomar cuidado redobrado a partir de agora. Teremos uma viatura rondando com mais frequência, mas não poderemos estar aqui sempre. Não fiquem sozinhas, evitem sair à noite e mantenham as portas e janelas trancadas.

— Bom, isso já fazemos, mais ou menos… – respondeu Bárbara – Desculpe, Sr. Ivan, mas fiquei curiosa. Conhecia as famílias da rua? – continuou.

— Não, mas mantive contato com alguns. Após mais de um ano, apenas três pessoas continuaram acompanhando o caso, mesmo sem conseguirmos progresso algum.

— Quem? – perguntaram as duas.

— O próprio Dr. Augusto, que nunca perdeu a esperança de concluirmos o caso e que, aliás, entrou em contato comigo nas últimas semanas para me colocar a par dos acontecimentos recentes e uma senhora, Dona Celeste, que se não me engano morava nesta casa – apontou para a casa de Sofia.

­— O quê, minha avó?

— Sim, mulher de fibra. Nunca quis sair daqui.

Os policiais já haviam dado por encerrada a chamada e entravam nas viaturas. O investigador precisava partir também. Os vizinhos já não estavam mais na rua.

— Tenho que ir, manterei contato!

— Espere! Quem era a terceira pessoa? – perguntou Bárbara novamente.

Já dentro do carro, Ivan coçou os olhos com a cabeça baixa tentando lembrar o nome.

— Magali… Magda… Maitê… Maria… alguma coisa com Ma…

Deu a partida no carro e manobrou, freando quando o carro já estava alinhado com a rua. Colocou a cabeça para fora e respondeu:

­— Marta! Era a Dona Marta, irmã do Sr. Guilherme.

— Como assim, era? Sabe onde posso encontrá-la?

— Sim, ao lado do irmão! Morreu há três anos. Boa noite!

A notícia caiu como uma bomba para Bárbara.

Dust – capítulo 3

Dias atuais, entrada do abrigo, Dust.

Naquele momento não havia nada que pudesse ser feito, a não ser torcer para que os três azarados chegassem ao abrigo antes da tempestade de areia. O Xerife berrava a plenos pulmões para que Elliot e Thomaz mantivessem a porta aberta por mais tempo, mas o vento a empurrava com força, forçando as dobradiças além do limite.

Os forasteiros já haviam alcançado a rua central, estando a cerca de cem metros do abrigo. Lá dentro, a ventania havia levantado tanta poeira vermelha que já não se via nada. A voz do Xerife, entretanto, ribombava resoluta:

— Por Dust! Mantenham a porta firme, rapazes!

— Xerife, o vento está muito forte, não vamos conseguir manter a porta aberta. E se demorarmos mais não conseguiremos fechá-la, a tempestade chegou! – Elliot já não aguentava mais, e Thomaz não era nem de longe o mais forte do grupo.

— Eu ajudo… – a voz murmurada não foi ouvida claramente, aliás, ninguém ouviu, mas isso não importava. Um terceiro homem se juntou à dupla para manter a porta aberta ganhando mais tempo para os estranhos. Era Rollo, um sujeito estranho e reservado, temporariamente estabelecido em Dust.

Lá fora, o vento destruía partes das construções enquanto os três cambaleavam entre escombros cada vez maiores dos restos de algumas casas periféricas da pequena cidade e, apesar de tudo, continuavam correndo.

A tempestade de areia chegou com muita poeira, inutilizando a visão de todos. Sem alternativa e temendo ser tarde demais, o Xerife ordenou que fechassem a porta e a travassem.

— ESPEREM! – Gritou uma voz exausta, mas não apavorada.

Três vultos atravessaram o umbral enquanto outros homens, incluindo o Xerife, escoravam e forçavam a porta na tentativa de fechá-la. Assim que passaram o trinco, desceram a prancha de madeira reforçada para travar definitivamente a porta.

O vento soprava forte lá fora enquanto varria areia e sabe-se lá mais o que, batendo violentamente contra a pesada porta. Dentro do abrigo, o silêncio dos cidadãos assustados só era quebrado pelos tossidos provocados pela poeira e respiração ofegante dos recém-chegados e dos homens que mantiveram a porta aberta.

— Ei! Essa foi por pouco, não?

A voz diferente e caçoada quebrou o silêncio. No escuro, alguém batia a pederneira para acender um lampião e fazer luz.

— Ei, Tex, onde estamos?

A voz lenta e pacata, quase boba, de um dos forasteiros revelava o nome de um deles.

— Ah, seu cabeça oca! Como vou saber? Eu não enxergo nada, e você? – Este, pelo jeito, deveria ser Tex e, provavelmente, o líder entre eles. Sua fala era engraçada, carregada de um sotaque distinto e caipira. Isso, por si só, já era estranho.

— Mas Tex, você disse…

— CALE A BOCA, SEU INÚTIL! Não consigo pensar direito com você falando. Billy, faça ele ficar quieto! – outro nome revelado.

— Pode deixar, chefe! Ei, Jack, é você aqui do meu lado? – esta voz denunciava uma pessoa mais esperta e ágil.

— Sim, sou eu… – Um som característico de uma bofetada foi ouvido, cortando a fala do tal Jack.

Conforme a poeira baixava e todos se habituavam ao ambiente fechado e com pouca luz, as silhuetas dos três estranhos tomavam forma no centro do abrigo. Embora diferentes na expressão corporal e modo de falar, as vestimentas os denunciavam como cowboys – botas, luvas, lenços no pescoço, chapéu e guarda-pó, mas eles não usavam armas.

Quando os habitantes da cidade passaram a enxergar melhor, os burburinhos começaram. Não pela presença de três forasteiros, mas pela aparência deles. Ao longe, durante a tempestade de areia, não foi possível reparar nos detalhes e após entrarem, a poeira e escuridão, ocultou a todos até aquele instante, mas agora que todos se acostumavam como ambiente, reparavam que os estranhos eram muito magros, até demais. De cabeças abaixadas, os chapéus cobriam suas faces, mas, em determinado momento, e até parecia que um deles, possivelmente o líder, esperava por esse instante para um efeito mais dramático, levantou a cabeça com uma risada espontânea, seguida de um comentário jocoso carregada de um sotaque caipira:

— Puxa vida! Que tempo ruim, hein meninos?

Neste instante mulheres gritaram e desmaiaram, homens tiveram os estômagos embrulhados e boa parte dos moradores mais próximos aos estrangeiros vomitaram, gritaram, ficaram catatônicos por alguns segundos ou reagiram com um misto destas reações.

O rosto de Tex era um esqueleto com brilhos alaranjados tremeluzentes nas órbitas oculares. Apesar do formato do corpo aparentar um homem forte, apenas ossos eram vistos na cabeça, pescoço e braços. O restante estava coberto por vestimentas. Os outros dois não eram tão diferentes, apenas que um deles parecia ser mais fino e o outro maior em tamanho – tanto em altura quanto largura, se é que isso era possível.

— Mas que diabos! – exclamou Tex diante da reação dos moradores.

— Comeram algo estragado? Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! – sua gargalhada caçoada ecoou pela sala repleta de pessoas assustadas.

— POR DUST! MAS QUE DIABOS DIGO EU! – gritava o Xerife enquanto seu bigode tremia todo, embora seu corpo todo tremesse igual. É claro que, posteriormente, ele negaria a todo custo o medo que sentira na ocasião

Elliot, Rollo e Thomaz também reagiram de formas diferentes; resistiram melhor ao choque, mas não sem efeitos nauseantes àqueles três horrores tagarelas. Mas isso logo passou quando a curiosidade superou o susto.

— Caramba, de onde vocês vieram? – perguntou Rollo com uma voz surpresa, mas ainda ponderada e mais ou menos tranquila.

— Ora, essa! Da tempestade, de onde mais? – a resposta de Tex foi direta e autêntica, embora um tanto forçada e não totalmente verdadeira. A pergunta não havia sido aquela, mas a resposta, para Tex, era. E por enquanto deveria bastar a todos, ao menos até a tempestade passar.

— Como sobreviveram ao deserto e à corrida pela tempestade? – questionou alguém.

— Isso até eu gostaria de saber, camarada… – e aqui nós tínhamos uma resposta autêntica. Tex não soube explicar, e não tinha como explicar.

— Vocês comem? – esta pergunta só poderia ter vindo de Elliot.

— Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! – outra gargalhada autêntica de Tex.

—  Mas é claro que comemos, você não?

— É que vocês são….

Elliot não soube como formular a sentença, Tex olhava de uma forma tão única e estranha para o ferreiro. que o desconforto foi inevitável. Será que sabiam da condição esquelética deles? Será que comiam, respiravam, sangravam? E, se faziam tudo isso, para onde ia a comida, o que acontecia depois? E como, por tudo o que Dust representava, as roupas pareciam preencher seus corpos normalmente e SEM cair? Assim pensava Elliot.

Rollo era mais prático em seu raciocínio. Bastava saber onde atirar para matá-los caso fosse necessário. E sua mão repousava sobre o Colt. A única questão aqui era saber ONDE atirar naquelas coisas. Eram sacos de ossos ambulantes! Thomaz apenas se limitou a manter certa distância e observar.

 — Ei, carinha, você é estranho… – disse Tex a Elliot e deixou de prestar atenção às perguntas.

Olhando ao redor e esticando o pescoço para ver a passagem que descia até a cisterna, os olhos de Tex brilharam mais intensos por uma fração de segundos, ao mesmo tempo que Billy olhava atentamente para Jack, ou parecia olhar. Era difícil discernir para quem realmente cada esqueleto estava olhando.

— E onde estamos, exatamente, pergunto eu? É isso que quero saber, moradores de… …de seja lá onde estivermos… Pode me responder essa, Xerife? – Tex perguntou enquanto virava diretamente para o homem da lei, o que foi estranho.

Acontece que, como já sabemos, Owen recebeu este apelido há muitos anos, em Albion, tornando-se tão parte dele que todos passaram a tratá-lo assim. No entanto, o que era curioso, é que depois que se estabeleceram naquele local e erigiram a cidade, Owen foi nomeado xerife de fato, sem nunca usar um distintivo, entretanto.

Ninguém, além do grupo da Caravana original e seus descendentes, conhecia o apelido de Owen. E apenas os moradores de Dust o chamavam assim, ninguém mais. Havia, é claro, alguns vendedores ambulantes que vez ou outra vinham do Leste para trocar mercadorias, mas era raro.

É claro que naquela situação, com a tempestade de areia castigando a cidade e todos assustados demais com as três aberrações, este detalhe passou despercebido, até mesmo para Owen e os três colegas – Rollo, Elliot e Thomaz -, que eram novos em Dust e desconheciam totalmente o passado do Xerife e da cidade.

— Bem, bem… digo. Vocês estão em Dust, o que é uma surpresa para todos nós, porque estamos longe de tudo e de todos.

Um pouco abalado ainda, mas controlado, o Xerife respondeu da forma mais natural possível.

— Ei, Tex, não era…

— CALE A BOCA, CABEÇA OCA! – gritou Tex.

— Não vê que estou conversando?

Billy deu outro tapa na cabeça de Jack, fazendo o chapéu cair e expor toda o crânio.

— Ei, Billy, isso dói…

— Fique quieto, idiota, ou o chefe vai te dar uma lição!

A relação dos três parecia óbvia – Tex era o líder, Billy executava ordens e Jack era um idiota.

— Elliot, meu rapaz, por favor, confira a segurança da cisterna.

— Sim, Xerife!

Elliot desceu o corredor de acesso enquanto era observado em silêncio por Tex. Fagulhas vermelhas flamejaram eu suas órbitas e apenas Thomaz, que estava observando a um tempo, reparou. Quando Tex deu uma desculpa qualquer para visitar a cisterna e se aproximar sorrateiro de Elliot, o bom rapaz Thomaz esgueirou-se em silêncio para escutar e observar mais de perto o que acontecia.

—  Ei, você, menino faz tudo.

—  Ahn? Oi?

—  Você sabe ler mapas?

—  O que?

—  Você sabe ler mapas?

—  Sim, eu sei.

Tex retirou um mapa bem velho de um bolso e mostrou para Elliot.

—  Sabe onde fica esse lugar? Sabe como chegar lá?

Elliot observou o mapa por alguns segundos.

—  Sim, eu sei. Essa é uma mina abandonada ao sul daqui. Mais ou menos meio dia de viagem a cavalo. Não há nada lá, Sr, Tex.

—  Pode me levar lá? Posso pagar.

— Sim, eu posso, mas não há nada lá, o que o Sr…

— Pesquisa! Conversamos melhor em outro momento, garoto.

— Tudo bem, Sr. Tex.

Elliot se interessou pela tarefa. Adorava mapas, gostava de um desafio e sempre foi muito curioso. Isso bastou para ele não questionar mais nada e voltar aos seus afazeres. Enquanto isso Billy e Jack se juntavam a Tex novamente para conversarem baixo em um canto sem perceberem a presença de Thomaz.

— Encontrei! Até que enfim encontrei! Preparem-se, rapazes. Temos uma mina para explorar!

Dust – Capítulo 2

32 anos antes, Albion

A decadência de Albion estava no limite, mas as pessoas não viam, ou não queriam ver. Amadan sabia como controlar o povo, só não conseguia controlar a todos. Havia entre os cidadãos aqueles que enxergavam a verdade, que lutavam em segredo para que a opressão caísse. Para esses, o burgomestre tinha uma solução. Os subversivos ao regime eram eliminados. A cidade possuía uma taxa muito alta de pessoas desaparecidas, e mais uma vez ninguém parecia se importar.

Owen observava o movimento da rua enquanto pensava nessa vida incerta dentro dos muros daquele lugar.  Via as pessoas andando pela rua, alheias aos segredos sórdidos da elite de Albion. Passavam sede e fome enquanto os mais afortunados esbanjavam os recursos. A luta deste homem era constante, ele queria uma cidade melhor, mais justa, e por esse motivo decidiu engajar-se na vida política. Toda semana participava do Conselho Público, toda semana lutava por leis mais justas, pela esperança de um amanhã melhor para o povo.

Era fim de tarde, as ruas já perdiam o movimento e em poucas horas o Conselho se reuniria. Olhou para o horizonte, respirou fundo, virou-se e abriu a porta. Um brilho, algo como um flash, fez Owen virar-se novamente. Viu um homem parado no meio da rua, olhando atentamente tudo ao seu redor. Parecia perdido.

— Posso ajuda-lo, senhor? – Owen perguntou atencioso, embora surpreso com a situação. Estava olhando para a rua até aquele momento e não havia visto ninguém, e aquele brilho diferente…

— Oh, desculpe! Estou um pouco desorientado… procuro por uma pessoa, disseram que mora por aqui.

— Um parente?

— Não, um profissional! Uma pessoa que entenda da região, história local, solo e que possa ser meu guia em uma pesquisa. Sr. Owen…

— Sou eu!

— Ah! Que sorte! Meu nome é Simon, poderíamos conversar?

Owen observou-o atentamente com seu jeito desconfiado. Analisou seus trajes finos e alinhados, sua postura nobre e a forma polida com que aguardava e o modo de falar – havia herdado essa característica do pai. Ponderou um pouco e respondeu cordialmente – essa característica veio do lado da mãe:

— Sr. Simon, acredito que tenha vindo de muito longe para me localizar, embora eu não consiga nem em uma vida imaginar como soube de minha existência, muito menos me encontrar, de fato. Não é do feitio dos habitantes de Albion serem cordiais e solícitos o suficiente para que tenham fornecido tal informação de bom grado e posso ter quase certeza de que não sou conhecido fora daqui. Estou certo, também, de que nenhum habitante tenha se atrevido a ultrapassar os limites das muralhas da cidade para aventurarem-se lá fora. Pelo seu traje, garanto que não é daqui e pelo seu sotaque, afirmo que não é de nenhuma cidade conhecida a milhas de distância.

A gargalhada vinda do forasteiro foi profunda e prazerosa, há muito não ouvida igual por Owen.

— Tem o espírito de seu pai… E a educação de sua mãe! Só poderia ser você, Owen.

— Conheceu meus pais? – a revelação quebrou um pouco o gelo entre os dois.

— Sim, conheci seus pais. Conversei pouco com sua mãe, mas tinha muito apreço por seu pai. Por respeito a eles te procuro agora, em um momento importante da sua vida.

— Momento importante? – Simon havia conseguido a atenção de Owen, que até o momento não havia permitido uma aproximação mais cordial.

— Owen, temos assuntos importantes a tratar, mesmo que não entenda isso no momento. Preciso da sua ajuda, assim como você precisará da minha em breve. Tenho informações que deveria saber. Estou disposto a ajuda-lo em sua nobre missão de melhorar a vida dos habitantes de Albion, em troca de sua ajuda para localizar um minério específico.

— Muito bem, Simon, conseguiu minha atenção! Poderemos conversar sobre negócios mais tarde e, depois de algum tempo ponderando e te conhecendo melhor, talvez possamos entrar em um acordo. Mas não te conheço, não confio em você e se, e apenas se, eu aceitar sua oferta, será dentro de meus termos.

Simon sorriu satisfeito com a resposta, fez um aceno com a cabeça e, segurando a aba do chapéu, respondeu:

— Como quiser, Xerife!

 Aquela frase não foi pensada, não saiu de forma jocosa e nem irritou Owen de alguma forma. Ambos riram, mas nenhum deles pensou que a brincadeira continuaria e o apelido pegaria.

Owen nem voltou para dentro de casa, apenas trancou a porta, tomou o caminho do Conselho acompanhado de Simon e foram conversando para se conhecerem melhor.

Bem-vindo a Dust!

Dias atuais, Dust.

O Xerife andava pela rua principal com seu jeito habitual. Educado e comunicativo, cumprimentava os poucos habitantes de Dust enquanto rumava para a loja do ferreiro. Em certo momento, entre a porta da ferraria e a avenida, parou após ouvir um ruído alto vindo de lá. Pouco tempo depois, uma pequena explosão e uma fumaça preta saindo pela porta da frente fez com que o homem da lei fizesse uma carranca, virasse a cabeça para o lado e cuspisse o fumo que mascava. Bem, parece que nosso Xerife não era um cara tão educado assim, mas com certeza era um bom sujeito – simples e ignorante, um provinciano típico, mas um bom homem. Ajeitou o cinto, pousou a mão no coldre apenas por hábito, respirou fundo e adentrou a loja.

— Por Dust, Elliot! O que diabos está fazendo? Mais uma dessas suas invenções malucas?

— Xerife, estou fazendo ciência, trarei o progresso a Dust! Haverá um dia em que… Continuar lendo Bem-vindo a Dust!

Centaurus em Alerta

O nascimento de uma aventura (e de um romance)

Eu ainda era um mestre novato nos jogos de RPG, algo entre um e dois anos de jogo, quando pensava em uma nova aventura. Por ser inexperiente, ser pioneiro como jogador de RPG em minha cidade e não ter contato com outros grupos, encontrava muita dificuldade no momento. Minhas referências eram o conteúdo da internet, que ainda engatinhava no Brasil, e a única revista especializada em RPG, cujas primeiras edições forneceram informações úteis e muito bem feitas. Sempre que folheava estas primeiras edições, dizia a mim mesmo desejar escrever conteúdos tão bons quanto os que estava lendo, principalmente as aventuras. Lembro que desta vez, em particular, reparei que fazia isso sempre e que, ao fazê-lo, acabava menosprezando minha capacidade. Foi nesse dia que mudei minha concepção de ser mestre e ser capaz. Disse em voz alta a mim mesmo que eu não poderia ser igual a eles, que poderia ser melhor, e que seria.
E assim, aos 15 ou 16 anos, dei início à minha primeira grande aventura – uma aventura que incluía não apenas o puro e simples combate, mas uma aventura mergulhada em uma história tão profunda e rica em detalhes que dela saiu todo o cenário de campanha futurista, vivo até hoje, em minha mesa. Foi, e ainda é, base de todas as minhas aventuras de viagem espacial e cyberpunk. Nascia a trilogia “Centaurus em Alerta”. 

Passei os três meses seguintes à minha epifania coletando dados dos elementos que gostaria de explorar em uma aventura e, embora possa parecer um tempo longo de pesquisa, eu ainda fazia o Colegial (hoje Ensino Médio) em período noturno e trabalhava o dia inteiro, restando minha hora de almoço e momentos em que não estudava alguma matéria.Entendam que esta coleta não significou o uso real dos elementos, mas foi importante para dar volume e uma base inicial de onde partir.

Entre as principais fontes, usei filmes de categoria B, séries e livros. Entre as principais fontes, cito “Arcade – Realidade Mortal”, “Arquivo X – O fantasma da Máquina” (temporada 1, episódio 7) e “Screamers”. Estes sim formaram o núcleo que desejava em minha história.“Arcade – Realidade Mortal” deu vida à I.A. (Inteligência Artificial) escondida no mainframe central da Estação Centaurus com nome homônimo, enquanto que “O fantasma da Máquina” de Arquivo X regulou o tom que desejava para a personalidade desta I.A.  Screamers entram em cena como principal desafio e enigma logo no início da aventura, representando um segundo projeto secreto e gancho para uma futura aventura, ramificada a partir dos eventos ocorridos aqui.

É importante ressaltar que em um cenário Cyberpunk o mundo pulsa com vida, violência e alta tecnologia, por isso achei necessário dar importância ao projeto Screemers tanto quanto a Arcade. Mais tarde essa estratégia se revelou correta por incrementar maior profundidade à trama.

No enredo original, a história começa com uma tragédia: o cruzador Alpha 1N, que retornava de uma missão na estação Centaurus explode próximo à atmosfera terrestre, matando a tripulação. Fragmentos grandes também resistem à reentrada na atmosfera e atingem uma área populosa da Cidade Internacional, sede da Federação.  Mensagens corrompidas do cruzador informam problemas com o reator, um ataque cibernético e um invasor não identificado. Para complicar, a comunicação com a Estação Centaurus é perdida e uma missão de emergência é iniciada para investigar o que aconteceu com o cruzador e com a comunicação da Estação. Paralelamente, os PCs, contratados pelo S.I.A.D. (órgão militar da Federação) são incumbidos de procurar indícios de envolvimento da Corporação Lunars, até então principal suspeita de conspirar contra a Federação e talvez atacar o Alpha 1N.Esta introdução serviu como ponto de partida para toda a estrutura da aventura, que acabou por se tornar tão grande que foi necessário dividi-la em três partes:

Centaurus em Alerta: resgate suicida – narra toda a apresentação do cenário e as descobertas dos segredos sujos da Lunars. Inclui, também, uma relação social bem complicada e conflitante dos PCs com um grupo de elite do S.I.A.D., importante para o desenrolar da trama quando um acidente/ataque mata integrantes do grupo de elite e fere gravemente outros.

Centaurus em Alerta: Ameaça Fantasma – A primeira aventura encerra-se garantindo a sobrevivência dos PCs, mas a um alto custo. A Estação está abandonada, parcialmente destruída e inoperante. A corporação Lunars responsabiliza diretamente o grupo dos PCs, que está neste momento detido em um quartel do S.I.A.D. para sua segurança. Uma mensagem da Estação Centaurus obriga a equipe a realizar uma nova missão – há um sobrevivente esperando por eles, e ele quer vingança.

Centaurus em Alerta:  Inimigo Imortal – Arcade escapou de novo. E desta vez conseguiu fazer algo pior. Toda a brincadeira de gato e rato anterior não passou de um engodo para que pudesse quebrar os códigos dos satélites e realizar a transferência de seu algoritmo (ou consciência) para o mainframe do Centrum, principal centro de tecnologia e desenvolvimento da Terra. Com toda a rede de computadores ao seu dispor, e rodando em um mainframe poderosíssimo, Arcade conseguirá em poucos dias ter acesso e domínio a todos os sistemas da Terra. A equipe dos PCs está retornando rápido, mas Arcade teve acesso ao sistema militar e já preparou a recepção…


Em resumo, eis a trilogia. Nascida de um desejo de fazer uma grande aventura, e um pouco de ambição, consegui criar algo memorável que meus jogadores lembram com euforia e saudosismo até hoje. Os novos jogadores já viveram algumas aventuras no mesmo cenário, inclusive participaram da trilogia reescrita para formato de eventos. Ela foi importante por dois motivos: permitiu que eu ganhasse confiança para escrever projetos futuros e mostrou que eu estava fazendo um bom trabalho como mestre.

O sucesso deste projeto me animou para começar a escrever outras histórias e, de certa forma, posso dizer que representou o início de meu gosto pela Literatura e por escrever não apenas aventuras de RPG, mas todos os contos que vieram depois. É claro que desejo escrever esta aventura na forma de um romance sci-fi, assim como muitas outras. Quem sabe em um futuro próximo?

Até a próxima!

Anatomia de uma personagem

O jogador por trás da criação

Um de meus jogadores é novato, tem dificuldades para se expressar e nunca foi de ler muito, como ele mesmo confessou um dia, possuindo uma certa dificuldade para ler e compreender regras, apesar de gostar muito de jogar RPG. Como agravante, possui emprego em uma fazenda longe da cidade e seus horários o impede de estar presente em muitas das partidas que marcamos. Em todo caso, é um jogador participativo e interessado quando consegue tempo para se dedicar.

Quando iniciei a Campanha de Dust, quase todos os jogadores já tinham em mente os rascunhos de suas personagens e como iriam funcionar no cenário. Foi fácil montar as planilhas para eles, mas a personagem deste jogador em particular era uma ficha em branco, possuindo apenas seu nome de jogador e personagem. Permaneceu assim por pelo menos 6 meses, até que em nosso último jogo, agora no começo de 2019, ele conseguiu aparecer para jogar de verdade. Só havia um problema, sua ficha não existia!

Para não perdermos a noite, iniciei a partida normalmente e jogamos como se sua personagem estivesse completa – quando era necessário um teste, pedia que jogasse com um NH pré-estabelecido por mim. Terminamos a aventura e disse que precisávamos criar a ficha de sua personagem sem falta. No dia seguinte comecei a trabalhar os elementos para esta tarefa.

Sabia que ele gostaria de manter a personagem original, mesmo estando muito tosca em termos de originalidade, personalidade e tática. Pensei então em potencializar aquilo que já sabíamos dele por meio das 3 ou 4 partidas jogadas previamente. Parti do princípio que como fazendeiro, tal como era originalmente, deveria possuir algumas perícias relativas a esta profissão, além de Empatia com Animais.

O cenário de Dust é um ambiente bem hostil – um deserto interminável com tempestades de areia, insetos gigantes e criaturas fantásticas, portanto esta personagem precisaria ser muito boa no que faz. Optei por uma gama de perícias vinculadas a Talentos específicos [Explorador e Companheiro Animal] para representar essas duas facetas: o ambiente inóspito de Dust e a característica de ser uma personagem voltada para o cultivo e lida com animais.

Obviamente, faltaram algumas perícias básicas para nosso fazendeiro, como Administração e algumas outras indispensáveis para quem realmente sabe lidar com a terra – havia, neta etapa,  a questão do total de Pontos de Personagem e o conflito entre o resultado que meu jogador queria e o que eu, como GM, tentei fazer para criar uma personagem jogável e ao mesmo tempo interessante para meu jogador. Essa deficiência, dentro do jogo, é explicada por suas Desvantagens: Dever (sua fazenda), Dependentes (seus funcionários), Senso do Dever (o povo de Dust) e Inimigo (um fazendeiro vizinho rival que deseja suas terras por serem mais férteis).

A escolha das Desvantagens pareceram óbvias por dois motivos:

1º – Elas justificam a ausência do jogador na mesa nos dias em que trabalha e não pode comparecer;

2º – Elas completam as lacunas deixadas na personagem em termos de perícias e outras capacidades ausentes.

É interessante observar que o próprio jogador, sendo novato e com pouca experiência, optou por usar um background dento de sua zona de conforto e, principalmente, realidade. Foi natural que eu trabalhasse Desvantagens que incorporassem essa perspectiva.

Com os Atributos, Vantagens e Desvantagens concluídas, chegamos a um ponto importante: suas armas. O laço e o chicote foram escolhas lógicas pela própria natureza da personagem. Pensei que seria legal ela possuir um estilo cowboy, mas com chicote no lugar da pistola – outros dois jogadores já cumpriam este papel.

O mais curioso é que conforme fui montando na minha mente a personagem, fui conversando simultaneamente com meu jogador por chat, e assim que enviava minhas ideias, chegava um texto parecido com o que eu enviara. Ele até comentou que eu estava lendo seus pensamentos e isso foi interessante porque media a satisfação dele com sua nova personagem.

O toque final foi um efeito nos ataques com chicote. Quando usado em combate ele se incendeia e queima o oponente. Para limitar o efeito (e economizar pontos), incluí algumas ampliações e limitações (Acompanhamento, Agente de Contato, Pode ser Roubado) – o dano é maior, mas apenas se o golpe inicial vencer a RD do Alvo. Da mesma forma o poder está no chicote, perdendo o efeito se perder ou ficar sem a arma.

Para finalizar, o jogador queria ter um falcão como animal de estimação e de caça, ser ótimo rastreador e ter senso do perigo. Deixei um facão como arma secundária e um rifle para ataques de longa distância.

Obviamente algumas pontas ficaram soltas ou incompletas. Foi necessária alguma aceitação “poética” para concluir a personagem, posto que ela deve agradar ao jogador, não a mim. Portanto, estando funcional, não me oponho ao resultado final.

Obviamente, não busco a perfeição, e com toda certeza o jogador não se interessa por ela, tendo considerado o resultado final de sua personagem perfeito.

Saga: Ascensão e Queda de Hordak – parte final: o destino de Hordak

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Parte final: o destino de Hordak

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Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 3: o poderoso Hordak

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Terceira parte: o poderoso Hordak

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Saga: Ascensão e queda de Hordak – parte 2: A Zona do Medo

Eu não imaginava que a galera fosse gostar tanto! Então, atendendo a milhares de pedidos, ao invés de ser um capítulo por semana, será um por dia. Portanto, até domingo vocês terão a conclusão desta maravilhosa Saga de Hordak. Enjoy it!

Saga: Ascensão e Queda de Hordak

Segunda parte: a Zona do Medo

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